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IA valoriza profissionais seniores e muda lógica da contratação
Empresas percebem que a inteligência artificial amplia a produtividade, mas exige experiência, senso crítico e repertório para gerar resultados de qualidade
A velha ideia de que tecnologia é coisa de jovens está caindo por terra justamente com a maior disrupção do século 21: a popularização da inteligência artificial (IA). Enquanto a ferramenta assume e acelera atividades repetitivas e extremamente operacionais e se torna generativa – capaz de criar novos conteúdos, utilizando modelos de aprendizado profundo (deep learning) para identificar padrões complexos – ela exige profissionais que sejam capazes não só de dar os melhores comandos, mas de fazer a crítica do resultado. E esses profissionais, para muitas empresas, são os mais experientes, aqueles que não apenas produzem prompts, mas os que sabem tirar o melhor da tecnologia, identificando e corrigindo incongruências e conectando os resultados da IA com a estratégia da empresa: os seniores.
De acordo com o cofundador da Mereo – plataforma integrada de gestão de pessoas – com sede na região Centro-Sul de Belo Horizonte e presente em mais de 40 países -, Ivan Cruz, enganam-se as empresas que, entusiasmadas com a velocidade e o volume de trabalho realizado pela IA, estão simplesmente demitindo colaboradores visando apenas a redução de custos.
“A IA consegue fazer o papel do analista, o mais operacional. Isso tira a necessidade de ter um executor humano. A máquina faz, mas não critica. A tecnologia dá ao sênior velocidade, potencializando a experiência. O sênior amparado pelos agentes de IA agrega valor à sua experiência. Muitas empresas se anteciparam e agora estão voltando porque têm um volume grande de resultados de baixa qualidade que precisa passar pela crítica de quem tem repertório para isso”, explica Cruz.
Segundo o executivo, há uma crescente percepção de que os profissionais mais jovens têm apresentando algum grau de dificuldade quando se deparam com as recentes invenções tecnológicas no ambiente de trabalho porque levam algum tempo para capturar o ganho de produtividade. Mesmo tendo maior familiaridade com tecnologia, muitas vezes ainda não dominam os fundamentos do trabalho, o que pode levar ao uso inadequado da IA, gerando, inclusive, retrabalho.
Para o fundador do Aion Group – com sede na mesma região da Capital – , Antônio Santos, por ser conversacional, a IA é facilmente compreendida pelos seniores, afinal, eles já “conversaram” muito mais do que os jovens e isso se torna uma vantagem competitiva para os profissionais mais experimentados.
“A IA não é uma nova linguagem, ela usa a linguagem natural, por isso ela é extremamente aderente à nova configuração etária do Brasil e de boa parte do mundo, que não é mais um triângulo, com uma grande base de pessoas jovens, mas sim um gráfico com a base estreitada (queda na natalidade) e um topo alargado (aumento da expectativa de vida)”, analisa Santos.
Passada a euforia sobre a possibilidade da redução drástica de equipes em um cenário de escassez de talentos, o uso de IA vem sendo repensado de forma estratégica dentro de empresas de todos os setores e portes.
“Tirando empresas realmente gigantes, a maioria não demitiu em massa porque passou a usar a IA. Ainda que com pouca reflexão, boa parte viu logo que não poderia diminuir substancialmente as equipes. Os layoffs globais colocaram na IA a culpa por muita incompetência e má gestão. O que chama a atenção é a seniorização em muitas empresas justamente por causa da IA. E aquelas empresas que se atentaram para isso primeiro estão formando equipes mais diversas, críticas e competentes”, analisa.
Embora muitas empresas estejam reagindo sem refletir sobre a questão, algumas anteviram que casar a IA com a experiência dos seniores é uma grande oportunidade de criar uma vantagem competitiva frente aquelas que ainda estão usando a inteligência artificial apenas para trabalhar grandes volumes de dados.
Sediado há 88 anos no Recife (PE), o escritório Urbano Vitalino Advogados tem uma equipe com mais de 2 mil profissionais especialistas espalhados pelo Brasil. O uso da IA não é recente. Em 2017 passaram a usar a primeira advogada robô do Brasil, a Carol, junto com a IBM.
Segundo o CEO do Urbano Vitalino Advogados, Fernando Castelão, a IA traz algumas contradições ou efeitos que, às vezes, surpreendem.
“Ela parece uma coisa totalmente eletrônica, automatizada, mas está trazendo uma demanda para cada vez mais os profissionais se destacarem pelas qualidades humanas como empatia, capacidade de comunicação, engajamento. Fora isso, ela vai tirar muitas atividades repetitivas, operacionais que gastam tempo e permitir que a gente invista mais tempo no relacionamento humano, as empresas poderão estar mais próximas dos clientes, conversar, ter dados customizados para poder tratar individualmente cada cliente”, analisa Castelão.
Empresas investem em treinamento para formar nova geração de seniores para lidar com IA
Enquanto os seniores avançam embalados pela experiência capaz de criticar a IA, uma nova preocupação começa a assombrar o planejamento das empresas: quem serão os seniores do amanhã? Se é verdade que o número de analistas está menor e não deve ter uma grande melhora diante da inversão da pirâmide etária e que as pessoas estão entrando mais tarde no mercado de trabalho, quem serão os profissionais capazes de no futuro, ler criticamente os resultados apresentados pela IA, predizer cenários futuros e traçar as melhores estratégias?
Treinamento e paciência parece ser a dupla capaz de solucionar o problema. Desenvolver pessoas passa a significar desenvolver capacidade de pensar, decidir e orquestrar sistemas inteligentes.
“Está cada vez mais evidente que a inteligência artificial não está apenas mudando como trabalhamos, mas sim a forma como as organizações são desenhadas. A qualidade do pedido tem a ver com os resultados. Os bons prompts são os que mais dão resultado, mas o júnior nem sempre tem repertório para pedir melhor e avaliar a entrega. A questão é como desenvolver os juniores. A empresa tem que ter uma cultura que incentive o aprendizado. Trabalhar a liderança média é difícil. Esse líder precisa de tempo para se desenvolver e desenvolver os seus liderados. É preciso fazer pesquisa de clima, avaliações que envolvem as pessoas. A tecnologia deve ser usada, também, para apoiar o RH e os líderes”, destaca o fundador da Mereo, Ivan Cruz.
O engenheiro de controle de automação e líder de IA em automação da IHM Stefanini, Gabriel Barone Caldas, avalia que os profissionais seniores levam vantagem no aprendizado e na aplicação da IA especialmente pela intencionalidade. Enquanto o jovem costuma ter mais tempo para testar a tecnologia, o mais velho busca a funcionalidade e critica o uso da ferramenta.
Para obter os melhores resultados, ele indica para as empresas a necessidade de padronizar governança interna, criar manuais, e realizar revisões periódicas para manter segurança e boas práticas.
“Testar soluções com usuários especialistas, coletar dúvidas e feedbacks para alimentar modelos, e validar ferramentas antes de escalá-las é fundamental. E quem melhor do que os profissionais experientes para fazer isso? No plano regulatório, a legislação brasileira está alinhada com padrões internacionais, especialmente com a União Europeia, dando ênfase ao uso responsável, transparência, segurança e responsabilização humana em casos de dano”, analisa Caldas.
Para os analistas, muitas empresas ainda sem saber como usar a IA, estão aumentando a produtividade individual, mas sem impacto no resultado da empresa. Daí a necessidade de diversidade de perfis nas equipes, incluindo pessoas dispostas a aprender, operadores e avaliadores de segurança, para que a combinação de habilidades permita melhores decisões e aproveitamento da IA.
“Existe um desafio grande para os jovens profissionais porque na maioria das empresas, os profissionais juniores e os estagiários, iniciavam fazendo atividades mais repetitivas, mais simples e são justamente essas que estão sendo substituídas pela IA. E as empresas têm muitas dúvidas sobre como formar esses profissionais. Antes eles ajudavam os mais velhos a se entenderem com a tecnologia, agora são os seniores que, com a ajuda da IA, levam humanidade para dentro do negócio”, reflete o CEO do Vitalino Urbano Advogados.
Fundada em 2016, a Mineração Morro do Ipê, com operação em Brumadinho, na divisa com Igarapé e São Joaquim de Bicas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), tem sua liderança bem próxima da operação, segundo o gerente de inovação e melhoria contínua da mineradora, Fabiano Medeiros de Oliveira. Para ele, isso é uma vantagem para a implantação da IA de maneira estratégica e sem sobressaltos dentro das equipes.
“Observo que quanto maior a empresa, mais jovem é a mão de obra que ela emprega. Como somos ainda pequenos, temos um grau de senioridade maior. E para habilitar esses profissionais para utilizarem a tecnologia, o caminho é a capacitação. Criamos o TransformAI, que é a capacitação da liderança na inteligência artificial. Temos um contrato com a Microsoft, então a gente usa o Copilot, e o nosso trabalho é colocar a IA de fato a serviço dos nossos colaboradores seniores”, pontua Oliveira.
Para o diretor de recursos humanos (RH) da Mineração Morro do Ipê, Alexandre Manoel de Sena, a questão da busca de profissionais seniores no mercado está atrelada à questão da tecnologia e também ao desenvolvimento psicológico das gerações.
“A adolescência, hoje, é tardia. Então, o profissional com 30 anos de idade não tem maturidade para tomar uma série de decisões que os profissionais da geração X tinham com a mesma idade porque ainda não viveram uma série de acontecimentos, como sair da casa dos pais e ter independência financeira, por exemplo. Não é um julgamento moral, mas uma condição. Esses processos sociais ajudam a amadurecer. As novas gerações podem amadurecer mais tarde porque vão trabalhar por mais tempo. Então, a tendência de as organizações buscarem essa maturidade é advinda da ‘casca grossa’ que as pessoas ganharam para tomar decisões, tomar risco e, ao mesmo tempo, fazer as análises com cautela”, avalia Sena.
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